Agrônomo do interior do Paraná cultiva lúpulo desde 2016

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Ana Paula Karczewski e o engenheiro agrônomo Laurês Cieslik, que plantou a primeira muda em 2016 e hoje já produz a própria cerveja com o insumo cultivado no quintal de casa



Fonte: Jornal de Beltrão


A cerveja é uma das bebidas mais antigas que se tem registro. Manuscritos datam seu aparecimento entre 4 a 8 mil anos antes de Cristo, na região do Egito. No ano passado, o mercado da cerveja movimentou US$ 281 bilhões em todo o mundo. No Brasil, há um consumo médio de 60,7 litros por ano para cada brasileiro. O boom da cerveja artesanal, entre 2007 e 2017, aumentou em 750% o número de cervejarias artesanais no Brasil, sendo 67 novas empresas somente no Paraná. Esses dados foram divulgados pela Forbes em janeiro.

Um dos elementos utilizados para a fabricação de cerveja, o lúpulo, é, praticamente, 100% importado de outros países, porque o Brasil não possui clima favorável para o cultivo da planta. Não possuía, pois agora um engenheiro agrônomo e produtor de cerveja de Francisco Beltrão resolveu arriscar o cultivo da planta em solo beltronense. Deu certo. Laurês Francisco Cieslik encabeçou o projeto há um ano e meio com o apoio da esposa, Ana Paula Karczewski, dos irmãos Lucas e Diego Cieslik e do primo Edinei Maieski.

“A gente começou fazer a fabricação de cerveja artesanal em outubro de 2016. Já fizemos mais de 20 estilos diferentes. A princípio estávamos com o intuito de fazer um produto que a gente pudesse consumir com maior qualidade do que se encontra no mercado por aí. A gente começou a produzir por meio do Empório Viena, que promove encontros periódicos dos cervejeiros da região. Em um dos encontros surgiu o tema sobre o lúpulo. O Sérgio Carniel trouxe algumas mudas de um produtor de Santa Catarina e resolvemos plantar”, conta Laurês. 

Poucos produtores brasileiros

Laurês informa que o Brasil produz cerca de três mil quilos de lúpulo por ano, um valor muito baixo. A maior parte da flor é produzida nas serras Gaúcha e da Mantiqueira. “As cervejarias importam, praticamente, 100% dos lúpulos de outros países, e a maior parcela, 55%, são provenientes da Alemanha e 43% dos Estados Unidos. Para cultivar a planta é preciso ter de 14 a 15 horas de luz e a latitude ideal dele seria entre 35 a 55 ao norte ou ao sul do globo. Aqui, nós estamos a 26 graus sul, está bem aquém do ideal. Mas tudo isso era lenda, pois, como todas as culturas que vieram para o Brasil, o lúpulo também se adapta”.

Cultivo no Sudoeste

No primeiro ano que Laurês plantou as mudas não teve produção. “Como engenheiro agrônomo, sempre tive a curiosidade de ir mais a fundo na questão de cultivo e manejo. Quando peguei a muda, que foi uma só, em novembro de 2016, plantei no meu terreno em Beltrão. No primeiro ano ela não produziu, só cresceu.”

O espaço de 500 metros nos fundos da casa, hoje, conta com 35 plantas matrizes, que vão produzir até quatro quilos ao fim da colheita.

“O objetivo principal era adicionar um ingrediente de qualidade, pois o lúpulo, hoje, vem pra nós de duas a três safras anteriores, então utilizamos produtos de baixa qualidade. A ideia era conhecer a planta e tentar produzir a flor que é um dos insumos mais caros da fabricação da cerveja”, diz o engenheiro. A partir das matrizes que cultiva em casa, começou a fazer mudas e entregar para os amigos da região. “No Sudoeste, hoje, são uns 30 amigos cervejeiros que estão produzindo o lúpulo para testes, para verificarmos se em outros municípios vai ter os mesmos resultados que eu estou tendo em Beltrão”, acrescenta.

Solo rico em nutrientes

O engenheiro agrônomo explica que ainda não há uma fórmula certa para o cultivo da planta no Brasil. Ele busca algumas dicas com produtores que estão experimentando o cultivo há mais tempo, principalmente em Santa Catarina. “Nós chegamos à conclusão de que o solo precisa estar com um índice bem elevado de matéria orgânica e bem equilibrado em termos de adubação, com pH de 6 a 6,5, o que seria ideal para a cultura. Não foge das hortícolas e frutíferas que usamos na região.”

O poder do lúpulo

O uso do lúpulo na composição da cerveja surgiu no século 9 e com dificuldades foi, aos poucos, sendo introduzido na receita da bebida. Dentre os benefícios da flor, está a conservação da bebida, o que era muito importante para a época, já que a cerveja azedava facilmente nos dias quentes. “O lúpulo é considerado um bactericida, deixando o ambiente hostil para as bactérias, ele inibe a reação de bactérias no líquido”, comenta o engenheiro agrônomo e primeiro produtor de lúpulo no Sudoeste, Laurês Cieslik. A flor do lúpulo também tem antioxidantes potentes, que retardam a deterioração dos tecidos celulares. “A flor, que vem da planta feminina, é utilizada para conferir amargor e aroma na cerveja. E é utilizada no processo de brassagem [fervura do malta, água e lúpulo] e quanto maior o tempo de fervura, maior o amargor que irá conferir para cerveja”, completa.

O cultivo do lúpulo como alternativa para pequenos agricultores

O lúpulo é utilizado para dar amargor
e aroma à cerveja,
além de ser um conservante natural
A ideia de Laurês e família vão além: tornar o lúpulo, no futuro, uma alternativa de renda para os pequenos agricultores da região. “Até o fim do mês será criada em Santa Catarina a primeira associação de produtores de lúpulo no Brasil. Eu também vou fazer parte, já que não há aqui no Paraná. Já temos conversas adiantadas com universidades, como a universidade de Dois Vizinhos, para pesquisas com o lúpulo na região. As pesquisas podem tornar essa planta comercialmente para os pequenos agricultores na região”, diz Laurês. 

Segundo o primeiro produtor de lúpulo no Sudoeste, os valores podem girar em R$ 300 o quilo da flor. “As perspectivas futuras, com bastante gente plantando, pode variar entre R$ 300 o quilo. Hoje, como são poucos produtores, os valores variam entre R$ 800 e R$ 1.000 o quilo. Além do uso para cerveja, também pode ter extração de óleo para a indústria farmacêutica, fitoterápica e cosmética, porque o lúpulo é calmante e muito aromático”, completa.

Benefício para o produto

Laurês, que já produziu cerveja com o lúpulo que ele cultivou, garante: “A cerveja fica muito melhor, principalmente o seu aroma, porque o lúpulo fresco conserva todas suas propriedades originais”. O engenheiro fez dois rótulos de cervejas ‘refrescantes’ com a flor. “Estamos fazendo alguns estilos de cerveja com esse lúpulo fresco. Colhemos e fazemos a brassagem no mesmo dia, pois faz com que a cerveja ganhe qualidade. Fizemos uma IPA [India Pale Ale] e uma Summer Ale, no estilo mais verão mesmo, que está nessa época de produção. Pretendo fazer mais uma daqui uma semana ou duas, uma APA [American Pale Ale], também com o lúpulo da nossa casa”.

 

 

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